Terça-feira, Novembro 24, 2009

Os monólogos insurrectos - XV

.



Não te levantes do que escrevo. Às vezes basta um lugar aprendido no escuro como forma de enlouquecer até à exaustão. Um lugar incurável, muito morto, habituado a estar onde és. Um esmero maiúsculo, se assim o quisermos. Poucas vezes. Uma doença à procura de casa. Onde se fica em flor (ou vertigem), ou em atalho para ser escombro.

Julgo ser eu, só. O rosto recalcado ao mínimo revólver. Coleccionando balas alojadas nos lábios de onde cais em erosão genital. Fabulosamente falecida de memórias e de corpos; outrora a graciosa implosão de nomes.

Trouxe metade dos teus demónios. Uma dor muito forte, abastecida de vultos e distúrbios afectivos, de tal modo inseparáveis que por cada órfão cresce um fóssil para longe. Fizeram-te íntima de homens doentes. Nómada cardíaca. Recolhendo estranhos durante o sono e concedendo-lhes uma floresta de lares. Tão depressa envelhecendo para cônjuge para que ninguém te reconheça o fundo da diuturna deficiência dos anjos.

Ajoelha-te quando chegares ao fim. A tua boca é um covil de línguas nas embocaduras dos falos. Matriarca dos bálanos cheios de água, minimamente venosos, coando a idade dos aromas (e do desmembramento). Engole-me com o teu ânus permanente, vertiginoso por dentro (onde passei a última depressão). Um sítio onde sejamos a fundação de um desastre, de noite e de novo, pela força de um desfecho arável: o ofício de terminar pessoas em fluidos. Um armazém de gente viável e glandes e vulvas e rectos. Fezes. Criaturas anseriformes rasgando à escuta.

Entraste em defunto. Deus quis-te (f)ilha de um beijo negro, espectro por baixo, esquartejada pela fetal tessitura dos alísios. A lavoura dos ventos, como animalidade tácita, onde acabaríamos por tremer de escrita. Assim é o metabolismo dos casais. Um diagnóstico anódino, talvez, em socorro da pontuação que te veio acabar.

Li todos os livros onde poderia abandonar-te. Dupliquei de medo por tamanhos abismos e deixei-me comover. Masturbei-me à janela do teu retrato, onde carregas o esquife paradisíaco de uma criança improvisada.

Vim-me na tua consciência.

(Foto da autoria de Deep)

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

menarca


entre as ancas de um livro,
cem mãos sem dedos escrevem a vermelho mênstruo
a venérea ausência de cristo.
a ferida exacta.
o acto de rasgar,
tão perfeitamente desesperado,
é o sustento de um guião vascular para os lúcidos.
a criação suicida.


há quem não entenda as vocações terminais.
as ruínas fundadoras de homens.
a beleza incompleta,
em procissão de vinho pelas pernas,
invade-me a boca como forma de (a)deus.


só então me venho,
ali,
no cúmulo dos tecidos transactos
e estradas tolhidas,
celebrando a ilegal distribuição de vivos
por talvegues maternos atados ao parto
(para nem sempre respirar).


há quem não entenda as vocações terminais.
como infectar de amor a cadência líquida
da tua ascensão a árvore.


(imagem: pintura de Hieronymus Bosch)

Terça-feira, Setembro 15, 2009

Cinefilia - Parte 14

Do cineasta brasileiro Karim Aïnouz:



Quarta-feira, Setembro 02, 2009

Cinefilia - Parte 13

Do cineasta brasileiro Murilo Salles




Sábado, Agosto 08, 2009

Cinefilia - Parte 12

Da cineasta peruana Claudia Llosa:




Terça-feira, Junho 16, 2009

Cinefilia - Parte 11

Do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan:




Sábado, Junho 13, 2009

Cinefilia - Parte 10

Da cineasta francesa Julie Gavras: